Unha ducia de poemas de Séchu Sende sobre a nosa lingua

O profesor, escritor e filólogo Séchu Sende quere dar a benvida a Neofalantes.gal agasallando as lectoras e lectores cunha ducia de poemas sobre a lingua galega. Velaí van!

“Quando começas a falar galego
na língua sempre é primavera”

Doce poemas sobre as palavras
Séchu Sende

1.
    Que lindas as primeiras palavras
    que pronúncias nesta língua.
    Som únicas,
    nunca as pronunciarás igual
    que ao princípio.
    Som frágeis, inseguras,
    como os primeiros passos
    dumha criança que sabe que vai cair
    e erguer-se.
     
    É tam fermoso equivocar-se.
    Aprender é assi, emocionante.
    Aínda que às vezes tamém doi
    e tes problemas, inimigos, soidade.
    Começar a falar a nossa língua
    nom é umha cousa doutro mundo
    e ao mesmo tempo
    muda a tua vida.
    É curioso.
     
    As primeiras vezes que falas
    som admiráveis.
    Vas com cuidado,
    a ver se nom rompes nada sem querer,
    um fonema, umha palavra.
     
    Moves a língua
    como nunca fixeras antes,
    como se aprendesses a bailar
    com as palavras

    com medo a pisá-las sem querer.
    E afinas o ouvido
    para intentar entender os sons
    que saem das cordas vocais
    num código secreto.
    Às vezes acabas aprendendo ao lado do mar,
    outras, com alguém na cama,
    se tes sorte...
     
    É tam fermoso ouvir-te
    como ouvir um pardal
    aprendendo a cantar no ninho.
    Quando comezas a falá-la,
    na língua
    sempre é primavera.
     
    É tam fermosa umha persoa
    que aprende a falar qualquer idioma!
    Como se começasse a prender um lume
    um dia de frio.
     
    Talvez aprendes a falar a nossa língua
    porque é necessário no trabalho
    ou porque queres fazer parte do povo

    ou para fazer justiça
     
    ou por amor
    ou porque si
    ou por que nom?
    Nom podemos explicá-lo todo.
     
    Tu sabes que
    o primeiro pronome bem colocado
    tem tanto mérito
    como um poema de Rosalia.
    E que a tua primeira conversa
    no supermercado vale tanto
    como o Sempre en Galiza.
    E continuas pouco a pouco
    dizindo Olá,
    Um quilo de patacas do país,
    Queres vir ao cine?
    Quero-te.
    E um dia, de súbito, dás-te conta
    de que já está.
    Já está!
     
    Para algumha gente é impossível.
    No me sale.
    Para outra é mais difícil que falar latim.
    Para a maioria é fácil aprender.
    Depende...
    Depende do tipo de persoa que queiras ser.
     
    É mui fermoso ouvir-te
    aprender a falar o nosso idioma.
    Quando começas a falar galego
    na língua
    sempre é primavera.
2.

    Quando nos conhecemos
    dixo-me no seu idioma:
    A tua língua é mui excitante.
    Dixo:
    Di-me palavras em voz baixa aqui,
    na caluga.
     
    Eu nom sabia
    por que podia ser excitante a minha língua
    e perguntei-lhe:
    Por que é excitante a minha língua?
     
    A tua língua é excitante, dixo,
    porque é um idioma que resistiu
    contra o extermínio
    mais de 500 anos,
    porque nasce cada dia
    para mudar o destino
    e, sobre todo,
    porque a liberdade é excitante.
     
    A tua língua é excitante
    porque cada palavra
    é umha guerrilha
    que vence o império no meu corpo.
    A tua língua é excitante
    porque cada palavra luita
    contra a morte.
    Porque é a língua dum povo
    que nunca será vencido.
    Porque umha única palavra pode ser
    umha cançom emocionante
    de amor à vida.
    E porque é a língua
    que eu quero aprender a viver.
    Por todo isso.
    Por isso me excita a tua língua.
     
    Ademais, quando a pronúncias
    aqui, na caluga,
    as vibraçons das tuas cordas vocais
    fam vibrar o meu coraçom
    e o meu sexo.
    E por isso che pido
    que me digas cousas em voz baixa
    aqui,
    para que as tuas palavras
    entrem no meu sistema nervoso
    e liberem toda essa energia
    dentro de mim
    e mais alá.
     
    Ahá, dixem eu... E dixem:
    Pois nom podia nem imaginar
    que a minha língua fosse excitante
    por todo isso.
    Eu é que falo a minha língua
    porque foi a que aprendim na casa...
    Aínda que algo de razom si que tes,
    nom che vou dizer eu que nom.
    Isso si, eu a poesia mui bem
    nom a entendo....
    Eu som mais de séries
    e video-jogos.
3.

Quem defende os sons da terra?
Quem protege a paisagem sonora?
Quem luita em defensa do sentido
do ouvido?
Nós.
 
Quem defende o nosso cráneo
das vibraçons dos muínhos eólicos?
Quem os nossos tímpanos
zszrzrzsrzsrzsrzsrzsrzsrzszz
das torres de alta tensom?
Nós.
 
Quem luita para que os ruídos
da indústria elétrica
nom entrem nas nossas casas?
Nós.
 
Quem defende os sons da aldeia,
o blues do trator,
o património oral,
o idioma,
as cançons das ras?
Nós.
 
A paisagem que sinto
quando fecho os olhos
é o meu pais sonoro,
o meu país de sons.
Quem o defende?
Nós.
 
A música da terra está em perigo.
Quem protege as melodias
da montanha
o falar do rio no val de Visunha,
a desbroçadora de Pedro ao longe,
o later do cam de Adrián,
o asubio de Pilar chamando os animais
em Hórreos,
as cantigas que improvisa Tegra
para as estrelas,
os grilos na reserva de orquídeas
no Chao dos Lobos?
Nós.
 
Caminham quatro poetas
até o Chao dos Lobos
e as suas palavras luitam
por defender a pátria sonora.
Chegam as palavras de miles de persoas
ou precisamos explosivos?
pensa alguém.
 
A quem lhe importa na cidade
umha fonte que canta no Courel?
Protegem os julgados os sons
da montanha?
Que di o governo sobre o valor
da música da terra?
Temos umha naçom de sons que proteger
ou tamém somos umha colónia sonora?
 
Os sons da montanha tenhem raizes
e querem arrincá-las,
instalar os ruídos do capital
nas nossas vidas
nos nossos sonhos
no nosso coraçom
dia e noite
dia e noite
zzzrzrzrzrzrzrzrzrzrzrrzr
ssszrzszsrzszsrzsrzsr
zzzrzrzrzrzrzrzrzrzrzrrzr
ssszrzszsrzszsrzsrzsr
zzzrzrzrzrzrzrzrzrzrzrrzr
ssszrzszsrzszsrzsrzsr
 
Eu nom sei se as palavras
podem ganhar soas esta guerra.
Mas na frente de batalha,
nunca nos cansaremos de berrar:
A Nossa Terra é Nossa!
 
Quem defende os sons da terra?
Quem protege a paisagem sonora?
Quem luita em defensa do sentido
do ouvido?
Nós!
4.
O tio de Sofia Oriana
tinha que pagar umha peseta
por cada palavra que dizia
em galego na escola.
Aprendeu na escola
que se falava a sua língua
perdia dinheiro,
que lho roubavam.
 
Havia outros castigos
por todo o país
para silenciar o idioma.
Ao tio de Brais Cores
metiam-lhe umha pedra
nos petos do pantalom
por cada palavra
que pronunciava em galego.
E Luz Fandinho conta
-podes ver o vídeo na internet-
que as monxas lhes ponhiam orelhas de burro
às nenas por falar galego
e um cartaz nas costas que dizia:
Yo soy una burra. Yo no se hablar.
 
Ou aquel neno de Calo:
-De rodillas!, berrou a mestra,
Y escribes cien veces
"No se dice chan, se dice suelo"
E dixo el:
-Señorita... de geonlhos ponho-me no chao, nom?
À mestra quase lhe dá um ataque.
 
Helena no colégio, Carvalhinho,
que veu duas pegas pola janela
e chamou-lhes pegas,
foi castigada a rezar três rosários
porque falar galego tamém era pecado.
 
E a Santi em Vigo
fechavam-no num armário.
 
Também é conhecido
o castigo do anel.
O professor entregava um anel
de chumbo
à primeira criança
que escuitava falar galego.
E essa criança passava o anel
à seguinte criança
que ouvia falar galego,
e esta a outra e assim
continuamente.
O anel ia passando
de mao em mao,
de dedo em dedo,
de medo em medo,
até que ao final da jornada
o profesor perguntava
Quien tiene el anillo?
E o castigo era a vara,
a tortura e o sangue.
 
Hoje continua a suceder,
adaptando o método aos tempos.
Nom vaiamos pensar
que um povo deixa de falar
a sua língua voluntariamente
ou por inércia.
Por exemplo:
Umha colega foi o primeiro dia de aulas
à escola
em Vigo
e dixo-lhe à mestra:
- Eu queria contar-lhe
que a minha filha fala galego...
E a mestra contestou:
- No se preocupe, en unas semanas
ya estará hablando castellano
y solucionamos el problema.
 
Hoje aínda há muita gente
que nom fala galego por medo
a um anel invisível,
a pedras invisíveis nos petos,
a um cartaz invisível nas costas,
a perder dinheiro,
a ficar dentro num armário...
Porque foi o que aprendeu na escola.
Aínda hoje as crianças aprendem
na escola
a viver o galego como um estigma,
umha marca invisível.
 
Por isso,
cada palavra que pronúncias
em galego
combate um prejuíço,
cada palavra que pronúncias
em galego
devolve umha moeda roubada
ao povo,
cada palavra que pronúncias
em galego
libera umha criança do peso dumha pedra.
Cada palavra que pronúncias em galego
muda a história.
5.

O primeiro que pagou
por cortar cabeleiras aos indígenas norteamericanos
foi o holandés Willen Krieft.
E logo os franceses
durante a Guerra dos Castores.
O home branco
estendeu essa práctica em México
e nos Estados Unidos
para exterminar os povos indígenas,
homes, mulheres e crianças.
 
Nas escolas residenciais
para crianças de Canadá
forom recluídas mais de 150.000
crianças inuites e doutros povos
às que o primeiro dia de escola
lhes cortavam as trenças
e a raíz do idioma.
 
Tamém nas escolas norteamericanas,
como na Escola Industrial Indígena
de Pensilvánia,
as crianças recebiam nomes brancos
e só podiam falar inglês.
O lema das escolas era:
"Mata o índio.
Salva o home",
e às crianças cortavam-lhes as trenças.
 
Em 1936, em Marím,
a Elsa Omil Torres
cortarom-lhe o cabelo
os fascistas.
Raparom-na como exemplo
e humilhaçom pública.
A foto que fixo Elsa rapada
está cheia de dignidade.
 
Hoje, umha amiga contou-me
o que lhe passou
à sua mestra,
Alazne Larrakoetxea
quando era nena
em Euskal Herria.
Umha parelha da Guardia Civil
espanhola
chegou ao seu casario
e pedirom algo de comer.
Quando escuitarom
a nena falar em euskera
com a sua mai
cortarom-lhe as trenças.
 
Por todo isto,
e por muitas outras razons
que nada tenhem a ver com isto,
eu falo galego.
 
Eu som galega.
6.
Um lobo apareceu aterecido na neve.
Colhi-no em braços e
e levei-no à casa.
 
Nom queria comer nada.
Até que comecei a falar-lhe.
E daquela dei-me de conta:
quando eu falava el abria a boca,
masticava,
e comia as palavras.
Quando eu pronunciava umha,
duas, três palavras ,
o lobo abria a boca e tragava.
 
O lobo comia as minhas palavras.
Ao dia seguinte marchou.
Mas de vez em quando volta
e damos-lhe de comer
as nossas palavras.
 
O lobo alimenta-se das nossas palavras.
 
Cada palavra que pronunciamos
entra na sua boca.
 
O lobo come as nossas palavras,
cresce com as nossas palavras.
E as nossas palavras nunca se acabam.
 
Nunca lhe negamos a comida.
Nom podemos fazer isso.
Sempre temos palavras para el.
 
Uns dias vem ao amencer,
outros, ao solpor.
E nós falamos-lhe
e o lobo come as nossas palavras.
7.
Homero, meu Homerinho,
que bem cantache as aventuras e desventuras
da odisseia da nossa língua.
 
No seu palácio Circe dizia-lhe no ouvido
a Ulises
No hables gallego, te queda mal
e el baixava a cabeça para amá-la
em castelhano.
Polifemo abria os cráneos como nozes
quando escuitava a gente falar galego
e berrava Habla nuestro idioma nacional
No seas bárbaro.
Mas conseguirom fugir da sua caverna
dizendo-lhe que eram Ninguém.
 
Homero, meu Homerinho,
no Mar da Transiçom
as sereias cantavam em castelhano
Acerca-te, oh, gallego,
para oír la voz que fluye de nuestra boca
y deja que te invada el corazón
nuestra lengua maravillosa...
Mas Ulises salvou a vida
amarrado ao mastro,
senom estaria morto como tantos centos
e o idioma, esnaquizado contra as rochas
porque o canto das sereias é fascinante.
 
Homero, meu Homerinho,
chegou Ulises ao país dos lotófagos,
e pousou na língua o loto,
esse fruto mais doce que o mel e o ópio,
e perdeu a vontade de regresar
à pátria
até que um dia na televisom
apareceu o Rei de Espanha falando-lhe
como a um súbdito espanhol
e conseguiu reunir forças, fugir
e continuar a viagem para Ítaca
com a cabeça ergueita
e por fim voltou a falar a língua que abandonara.
Ai, Homero, nom sorrias,
a vida dá muitas voltas!
 
Homero, meu Homerinho,
Penélope nunca deixou de falar galego
apesar da presom dos poderosos
que pretendem A Nossa Terra
e instalarom centrais hidroeléctricas,
umha fábrica de celulosa
e 4000 gigantes de Eolo
por todo o país para roubar-nos.
Penélope sempre ceive
continuou a falar sempre em galego
junto a miles
e a defender a pátria tecendo a Resistência
entre muita gente rebelde.
 
Ai, Homero, meu Homerinho,
a Telémaco roubarom-lhe a língua na escola
mas agora é neofalante,
escreve com NH,
montou um grupo pop
e foi à Guerra contra os Eólicos.
Está nas montanhas,
nom sabemos quando voltará.
 
Ai, Homero, meu Homerinho,
Ulises atravesaria os coraçons dos traidores
com as frechas do seu arco,
como se faziam as cousas na antiguidade
e hoje nalgumhas naçons como a nossa,
mas sabe que a Audiência Nacional,
e La Voz de Galicia
som tam poderosos como Polifemo
e as sereias.
Agora entre muita gente temos
que pensar como liberar-nos
com as armas do século XXI
nesta naçom da Europa,
como sempre figemos.
 
Ai, Homero, querido cego,
é umha odisseia defender a nossa língua
e esta história nunca acaba
porque a luita continua,
a luita continua mais alá dos poemas,
a luita continua sempre
entre muita gente e mais Ninguém.
8.
Um dia dei-me de conta
de que o país falava outro idioma.
Um dia dei-me de conta de que eu....
 
Descobrim que muitas crianças deixavam
de falar o seu idioma comigo.
Que a panadeira deixava de falar o seu idioma
quando eu lhe pedia pam,
e o senhor do súper
e a vizinha do lado
e a minha amiga Luzia,
Damián, Laura ou Maria
nom falavam o seu idioma comigo.
 
E assi um dia soubem
que era eu quem provocava
que muita gente deixasse de falar a sua língua
porque eu nom a falava.
E às vezes quando eu entrava num sítio toda a gente deixava de falar
a sua língua comigo.
 
Assi que um dia decidim começar a fala-la.
E comecei a fala-la.
E de súbito muita mais gente
do que pensava falava comigo
nesta língua que falo.
 
E dei-me de conta tamém
de que há gente
que habitualmente nom fala esta língua
que aproveita para fala-la comigo.
 
E comecei e escuitar mais o idioma
deste país que antes às vezes
nom me falava a sua língua.
E agora sei que porque a falo eu
mais gente a fala
e sei que por mim
as crianças nom deixam de fala-la,
todo o contrário.
 
E foi maravilhoso saber
que as minhas palavras se multiplicam
noutras persoas
quando as pronuncio.
E do mesmo jeito que antes
eu fazia a língua mais pequena
agora sinto que comigo o idioma cresce
e que sempre está onde eu estou
e um pouco mais alá,
ou muito,
inevitavelmente.
 
E afortunadamente
como eu há muita mais gente
a falar a nossa língua sempre.
A contagiar o idioma alá onde vaiam.
 
Porque o idioma contagia-se,
como os bocejos, os sorrisos,
a calor, o frio, os vírus, o silêncio,
o medo, o orgulho, os prejuíços,
as revoluçons, a felicidade, o optimismo...
A nossa língua contagia!
 
E agora sei que a minha vida
transforma outras vidas
na rua, no parque, na panadaria,
no talher, numha oficina...
do mesmo jeito que as vossas palavras
transformam as minhas.
9.
Palavras para saír adiante
 
Que cansativo abrir livros e mais livros
que falam da morte, a saudade,
a destruçom, ruinas e todas essas cousas
com palavras vencidas que nos derrotam
e pesimistas que nos detenhem
antes de dar o primeiro passo.
 
Há mais palavras fora dos livros
à parte de cascalhos, elegia, ósos, morte...
E é normal que a gente utilice as palavras
para saír adiante
aí fora.
 
Precisamos palavras para saír adiante,
que empurrem de nós quando há cansaço,
que nos dem alento ao perder os folgos
e nos ponham a mao no ombro,
e digam Venha, vamos, força, adiante.
 
Precisamos palavras para saír adiante,
mais alá da poesia tam profunda que nos representa no fondo dum abismo,
profunda como um poço onde a luz nom chega
e nom oferece cordas, escadas, maos, ajuda,
um caldeiro numha poleia tam sequera.
 
Precisamos palavras para saír adiante
e menos silêncio,
música nos versos,
um festival de verao nalgum poema,
aturujos, rebeldia.
 
Palavras para saír adiante,
para saír adiante como qualquer ser vivo,
formiga ou povo.
Há muitos poemas sobre a morte
e poucos sobre a força das sementes
das palavras
em busca da luz da vida.
 
Palavras para saír adiante,
porque as palavras producem realidade
e nom quero ser umha colónia
do silêncio, o pesimismo, a poesia da derrota.
 
Precisamos palavras para saír adiante,
que empurrem de nós quando há cansaço,
que nos dem alento ao perder folgos,
e nos ponham a mao no ombro,
e digam Venha, vamos, força, adiante.
10.
A bandeira está na lavadora
 
Durante anos o nosso povo
cresceu ao lume
dum programa infantil de televisom.
A bandeira está na lavadora.
 
Quem nom canta nem dança
nom tem direito a luitar,
dize um provérbio curdo.
 
Os serviços de inteligéncia sabem
 que as mulheres com umha ferrenha
tatuada na caluga
som perigosas:
quando cantam mudam o mundo.
 
Di-me, oh, Música,
quantos decibélios som necessários
para liberar um povo?
Quantos acordes? Quantas melodias?
 
As mulheres repentistas chegam antes ao futuro.
Elas podem abrir em qualquer momento,
em qualquer lugar,
caminhos que nom existem.
 
Ninguém pode dete-las
nem elas sabem por onde irám.
A bandeira está na lavadora.
 
Ouvide!
As cordas vogais vibram com poténcia,
com a máxima expressom de eufória.
Temos que ir organizando-nos
para cantar ao mesmo tempo,
para cantar ao mesmo tempo.
10.
A bandeira está na lavadora
 
Durante anos o nosso povo
cresceu ao lume
dum programa infantil de televisom.
A bandeira está na lavadora.
 
Quem nom canta nem dança
nom tem direito a luitar,
dize um provérbio curdo.
 
Os serviços de inteligéncia sabem
 que as mulheres com umha ferrenha
tatuada na caluga
som perigosas:
quando cantam mudam o mundo.
 
Di-me, oh, Música,
quantos decibélios som necessários
para liberar um povo?
Quantos acordes? Quantas melodias?
 
As mulheres repentistas chegam antes ao futuro.
Elas podem abrir em qualquer momento,
em qualquer lugar,
caminhos que nom existem.
 
Ninguém pode dete-las
nem elas sabem por onde irám.
A bandeira está na lavadora.
 
Ouvide!
As cordas vogais vibram com poténcia,
com a máxima expressom de eufória.
Temos que ir organizando-nos
para cantar ao mesmo tempo,
para cantar ao mesmo tempo.
11.
As palavras das nossas crianças
Todos os anos botamos a semente
e a semente consegue crescer.
Segundo a UNESCO
som sementes em perigo de extinçom.
Som as palavras das nossas crianças.
 
Por isso há muita gente cuidando delas,
senom isto seria impossível:
Chegam a crescer no asfalto da cidade,
abrem-se passo entre o formigom
e os ferros oxidados,
entre as baldosas dos centros comerciais
e as luzes de neom.
Som as palavras das nossas crianças.
 
Se nom fosse por toda a gente
que protege as sementes
nom seria possível o que está a suceder.
 
Nom é fácil sementar, bem o sabedes,
o trabalho é duro e precisamos ajuda.
Vinherom ajudar mulheres com pelos nas pernas
e homes com sombra de mulher.
Frida Kahlo e Astrid Lindgren vinherom à nossa horta
e Carolina
e Valentina Tereshkova falando português.
Neste país é mais difícil achar alguem
que venha roçar as malas ervas que um poeta,
e sabemos abrir a terra com as palavras.
Som as palavras das nossas crianças.
 
Se nom fosse por toda a gente
que protege as sementes
nom seria possível o que está a suceder.
 
Tem que ser assi:
Fazemos umha cadeia humana.
Fazemos umha cadeia humana
para passar de mao em mao
todo o que seja necessário.
e a energia transforma-se,
o resultado da cadeia humana
som as palavras das nossas crianças.
Som as palavras das nossas crianças.
12.
Adiante
 
Eu gosto muito das palavras,
entre outras cousas.
Adiante!
 
Há quem ama especialmente as nuvens,
os animais, as pedras,
o bem comum, sonhar, outra persoa,
adiante.
 
Eu necessito ouvir as palavras e
senti-las saír da boca.
Aí vai umha: Adiante!
 
Gosto de transmitir as palavras,
sentir-me parte dumha cadeia
de muita gente,
dumha correia de transmisom
num motor de muitas revoluçons.
 
Talvez já sabes como é:
O povo transmite-nos as palavras
e nós transmitimos as palavras do povo.
Adiante!
 
Sinto que as palavras da minha língua
som a energia do meu povo.
 
Também sei que há gente
que nom transmite as palavras da nossa língua.
Agora nom vamos falar disso.
 
Sei que há pais e maes
que nom lhes transmitem a língua às crianças
e há pais e maes que si, adiante!
 
Que há jornais, filmes, professoras, gente que se beija no semáforo e grupos de rap
que ignoram a nossa língua,
e jornais, filmes, professoras, gente que se beija no supermercado e grupos de rap que a levam adiante.
Adiante!
 
Que há governos, empresas e leis que atacam as palavras
e gente que luita e as defende, adiante, adiante, adiante!
 
Adiante é mais que umha palavra.
 
Se às vezes quando escuitas Adiante
sentes algo que se move dentro de ti
cara adiante,
sabes que Adiante é mais que umha palavra.
É energia.
 
Como todas as palavras do nosso idioma.
 
As palavras da nossa língua
som a energia do nosso povo.
Adiante!
 

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